Hoje quando peguei o ônibus para o trabalho, bem cedo, logo comecei a resmungar: Que dia chato, que droga de trabalho, que chefe chato… E de repente, no ponto de ônibus no centro da cidade, todo mundo descendo da “lata de sardinha”, e me chamou a atenção de um senhor, bem moreno, de calça social, camisa xadrez, e um chapéu, aparentando seus 80 e poucos anos, pacientemente de pé, numa postura ereta, digna de um jovem em plena forma, esperando todos os passageiros descerem do ônibus para subir. Vi também que ele tinha um broche na lapela da camisa.
Quando ele subiu, e sentou-se naqueles bancos mais altos do ônibus, ficou com os pés balançando, uma postura despojada que muito me fez lembrar fotos de soldados em caminhões de transporte de infantaria, em deslocamentos para a retaguarda, onde os soldados estão mais “relaxados”… Associei essa postura, a postura da entrada do ônibus, e o broche, logo pensei: É ex combatente!
Como admirador e historiador, fissurado na participação brasileira na segunda guerra mundial, tratei de logo aproveitar o momento para um breve papo…
Fiquei em pé ao lado dele, e logo dei os parabéns para ele: Senhor, bom dia, parabéns! Fizeram muito bonito na Itália! E aquele senhor, de semblante sério, abriu um sorriso de orelha a orelha, e ficou com os olhos lacrimejantes… Nem vou comentar sobre o breve papo…
Mas, nossos ex-combatentes, que deram duro na Itália, já estão em “fim de carreira”, restando muito poucos vivos. Por que, nós, nunca demos valor aos nossos heróis? Por que nunca celebramos as suas vitórias?
Tento me colocar no lugar deste senhor, com seus 19 anos, com uma carta chegando em sua casa, com dizeres bem simples , e uma única ordem: Apresente-se para seleção, você foi convocado para a Guerra! E não foi uma guerra qualquer, foi a maior guerra que este mundo já viu… Tento me colocar novamente no lugar dele, no desembarque em solo italiano, sem treinamento, com fardamento de péssima qualidade, levando cusparadas dos italianos que confundiram os brasileiros com prisioneiros nazistas… Tento me colocar no lugar dele aturando as humilhações a que estes homens se submetiam ao comando americano, ao preconceito que sofreram… Tento me colocar no lugar deste senhor, tendo que aprender a lutar, sob fogo de um inimigo veterano do front russo, o mais sanguinário da guerra, jovens que uma semana antes atiraram pela primeira vez com as armas americanas, enfrentando um inimigo fatigado, mas profissional da guerra… Tento me colocar no lugar deste senhor, quando ele esteve nos combates em Monte Castelo, onde sofremos duras derrotas, em Camaiore, na conquista da Cidade de Montese, um feito heróico, somente a divisão brasileira conseguiu tomar uma cidade italiana da maneira como Montese foi tomada naquele dia, nos dias seguintes, os alemães jogaram mais bombas nos Brasileiros em Montese, do que no resto da Itália toda! Tento me colocar no lugar deste senhor, vendo amigos estraçalhados por minas, granadas, pelas “lurdinhas”, as temidas metralhadoras MG-42 (são tão boas, que são usadas até hoje no exército alemão)… Tento me colocar no lugar dele, nos momentos de tensão, no fox holes (trincheiras para 2 pessoas), naquele frio de 40 graus abaixo de zero, sendo bombardeado, ouvindo o sibilar das balas de fuzis inimigos passando sobre sua cabeça, do terrível pé de trincheira, que fazia os pés apodrecerem no frio… Tento me colocar no lugar deste senhor passando fome, comendo o que tivesse, ficando as vezes 3 meses sem tomar banho devido aos combates incessantes, ouvi relatos de soldados que comeram ratos com mel nos fox holes! Tento me colocar no lugar destes homens, quando da chegada da Força Expedicionária no retorno ao Rio de Janeiro, tendo que tirar a farda 3 dias depois de tocar o solo brasileiro, sendo proibidos de usar a farda que defenderam!
Quando penso nisso, não consigo compreender como esses homens sobreviveram a tamanhas provações, antes, durante, e depois da guerra! E quando tento me colocar no lugar desses homens na pior das situações, eu não consigo, pois o crime mais hediondo cometido a estes 25 mil homens, foi o esquecimento, a negligência, e a difamação que sofreram no país que defenderam, e pelo qual muitos morreram na sua juventude… Quando vemos como foram tratados os nossos heróis, sem pensão do exército, sem tratamento psicológico, sem apoio de qualquer tipo, sem profissão, exluídos da sociedade industrial que nasceu no país, começo a entender porque o nosso país anda tão mal das pernas… Se não cuidamos nem dos nossos heróis? Do povo comum então…
Por isso, peço um favor a todos os que lerem este pequeno desabafo… Quando ver um homem, com o emblema da Cobra fumando (pois é, diziam que era mais fácil uma cobra fumar do que o Brasil ir à Guerra, então a cobra fumou), pelo amor de Deus, exalte esse homem. Dê a ele, um alento no fim de sua vida, faça o sorrir e pela primeira vez sentir orgulho de ter oferecido a vida em sacrifício da defesa da pátria!
Abraços Galera…





Frederico,
Sem dúvida alguma temos de lembrar constantemente destes homens que lutaram durante a guerra. Infelizmente podemos dizer que eles foram usados como massa de manobra entre o governo Vargas e os Estados Unidos. Foram largados na Europa com frio e fome. Por isso esses que deveriam ser considerados os verdadeiros heróis e não os costumeiramente enaltecidos pela história.
Grande abraço …
Meu avô foi um lutador da conquista de Monte Castelo. Enviava cartas para minha avó que eram recortadas partes que não podiam ser ditas. Infelizmente após a morte de minha avó tudo sumiu, só fiquei com o casaco que meu avô usou durante o frio da Itália e poucas fotos. Lembrarei sempre do seu relato e esquecer um ex-combatente é esquecer a própria história.
Beijos